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CATHARINA SOUR : O primeiro estilo de cerveja brasileiro

catharina sour estilo de cerveja

A Catharina Sour foi objeto de estudo do Sommelier de Cervejas e aluno do curso de Master em Estilos Rafael Eduardo Althoff no ano de 2018, mesmo ano em que o estilo foi oficialmente reconhecido pelo guia BJCP.

De lá pra cá, a Catharina Sour deixou de ser uma simples promessa para se consolidar como o primeiro estilo de cerveja brasileiro e se tornar motivo de orgulho para toda comunidade cervejeira nacional.

Sob a orientação da professora Fernanda Meybom, a pesquisa fala das principais caraterísticas das escolas cervejeiras do mundo, dos guias de estilo que fornecem as diretrizes para fabricantes e organizadores de competições de cerveja e, claro, da história de criação e das características dessa bebida fermentada ácida marcada pela presença de frutas tropicais.

Com vocês, um breve e saboroso estudo sobre a Catharina Sour!

Prosit!


 CATHARINA SOUR – O PRIMEIRO ESTILO BRASILEIRO

Resumo

Desde a sua fundação e o início das bases de categorização em 1977, as escolas cervejeiras se distinguem uma das outras por suas diretrizes, estilos e princípios, mas sobretudo pela cultura do local em que foram criadas. Nessa mesma linha é que foi criada no Brasil a Catharina Sour, desenvolvida com inspiração no estilo alemão Berliner Weisse, mas com adição de frutas frescas e especiarias com o objetivo de incentivar também o uso de frutas nacionais, em abundância no país. A bebida se propagou em diversas cervejarias, agradou o paladar do consumidor e se tornou, em 2018, o primeiro estilo brasileiro de cerveja oficialmente reconhecido e catalogado.

Palavras-chave: Cerveja; Estilos; Escolas Cervejeiras; Brasil; Artesanal; Catharina Sour.

INTRODUÇÃO

O Brasil vem buscando a sua identidade cervejeira desde que as artesanais ganharam volume e começaram a se espalhar pelo país. 

Nesse movimento, as frutas, em abundância na terra brasilis, acabaram ganhando destaque nas receitas das cervejarias, trazendo cores, aromas, sabores e texturas únicas às cervejas.

O estilo Catharina Sour, iniciativa catarinense que vem ganhando o mercado e o paladar do consumidor nacional, retrata o movimento das cervejas especiais do país, como também a força e a qualidade das cervejarias brasileiras. 

Por outro lado, a receita recentemente catalogada como o primeiro estilo brasileiro é alvo de polêmicas entre especialistas e cervejarias, já que a sua base é similar a outros estilos já produzidos.

Com base nessas premissas, o principal objetivo deste trabalho é descrever o estilo Catharina Sour, sua história, suas características, ingredientes e processos. Também faz parte do objetivo desta pesquisa realizar uma revisão bibliográfica sobre as escolas cervejeiras, as definições e os guias de estilos.

2.0 ESCOLAS CERVEJEIRAS

A história da cerveja no mundo se reflete na própria história da globalização. Antigamente, a produção era local e não havia importações e exportações de produtos, já que a tecnologia do transporte também não existia. Sendo assim, a grande força cervejeira se deu em regiões onde a produção de grãos era mais evidente, como na Europa. 

Assim como na gastronomia típica, onde cultura, costumes e a biodiversidade do local influenciam em uma receita, em cada região criou-se um jeito de fazer a bebida.

Foi assim que surgiram as Escolas Cervejeiras da Europa, que representam hoje três quartos das diretrizes cervejeiras do mercado mundial.

2.1 Escola Alemã

Na Lei de Pureza Alemã (BELTRAMELLI, 2012, p. 82) diz-se:

“Em especial, desejamos que daqui em diante, em todas as nossas  cidades, nas feiras e no campo, nenhuma cerveja contenha outra coisa  além de cevada, lúpulo e água. Quem, conhecendo esta ordem, a transgredir e não respeitar, terá seu barril confiscado pela autoridade judicial competente, por castigo e sem apelo, tantas vezes quantas acontecer.”

Foi em 1516 que a Escola Cervejeira Alemã começou a traçar o seu perfil cervejeiro. Até então, as cervejarias não tinham padrão de qualidade, receitas e acrescentavam ingredientes em suas receitas que nem sempre eram bons para a bebida. Foi então que o duque da Baviera decretou a Reinheitsgebot, a lei que permitia apenas água, cevada e lúpulo nas receitas – o fermento entrou alguns anos depois, já que naquela época não se sabia da existência dos microrganismos.

Movimentos políticos e econômicos também influenciaram a nova lei que deu início a escola germânica. Um deles foi o trigo, que não tinha sua produção para abastecer padarias e cervejarias, ou seja, ou tinha-se pão ou tinha-se cerveja. Foi então, que, para suprir a falta de abastecimento do insumo, a lei proibiu o uso do trigo na cerveja, mas é claro que isso não afetava os nobres de sangue azul, como o Duque, que possuía sua própria produção de Weizenbiers

Por quase três séculos a lei permaneceu dessa forma, até que em 1806 o termo cevada foi substituído por malte. A partir de então, as cervejas de trigo, sempre muito apreciadas pelos alemães, puderam retomar seu espaço no mercado oficialmente.

Quinhentos anos depois, mesmo com algumas alterações, a lei da Pureza Alemã consolidou e definiu o jeito alemão de fazer cerveja. 

Atualmente, respeitando as raízes dessa tradição, praticamente todas as cervejarias produzem suas receitas conforme a Reinheitsgebot

Assim, geografia, política e tradição traduzem a história de uma das mais antigas escolas cervejeiras do mundo.

2.2 Escola Belga

Diferentemente da tradicional Escola Alemã, na Bélgica não há limites e julgamentos para a produção de cerveja. 

Assim, a escola belga é conhecida como um paraíso de diversidade cervejeira, que vai de bebidas leves, escuras e maturadas em barris até processos à moda antiga os quais trazem toda a história, cultura e sabores dessa clássica escola cervejeira. 

Aliás, as tradições e o jeito diferenciado de fazer cerveja colocam a Bélgica no centro do mapa cervejeiro mundial, sendo destino turístico e cultural, além de inspiração e base para inúmeras cervejarias em todo o mundo.

Como outras escolas, não só história e tradição influenciaram na sua formação, mas também a geografia, especialmente o clima do país. 

As condições climáticas da Bélgica são propícias para a produção de grãos e lúpulos, mas o mesmo não acontece com as uvas. Assim, sem produção própria de vinho e com as altas taxas de importação da bebida, os belgas utilizaram sua criatividade e criaram bebidas mais complexas e alcoólicas para substituí-lo.

Além desses fatores, a religião fez toda a diferença na criação das cervejas belgas marcadas pela intensidade e teor alcoólico elevado. Foram nos mosteiros católicos que elas ganharam vida, esses lugares sagrados em que os monges produziam cervejas para matar a sede, mas também se alimentar. Foram séculos de melhorias e receitas sendo passadas por diversas gerações de monges, dos quais os pertencentes à Ordem Trapista são os mais renomados.

A Ordem Trapista ou Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância é uma congregação religiosa católica. Seus monges seguem o princípio fundamental do ora et labora, vivendo em grande austeridade e silêncio. Fazem três votos: pobreza, castidade e obediência. Assim, as cervejas fabricadas obrigatoriamente no interior dos mosteiros e sob supervisão direta dos religiosos não são comercializadas com o propósito do lucro, mas apenas para manter o funcionamento das próprias abadias e alguns serviços de caridade ao  redor do mundo (BELTRAMELLI, 2012).

2.3 Escola Inglesa

Como em grande parte da Europa, no Reino Unido também era comum o consumo de uma bebida alcoólica como fonte de líquido e alimento, já que a água não tinha boa procedência. Assim, no lugar da água, os ingleses  costumavam beber ale, como era chamada a cerveja no Reino Unido. 

A produção da bebida era responsabilidade das mulheres, como toda outra fonte de alimento. Segundo Beltramelli (2012), as mais talentosas, as que produziam as cerejas mais saborosas, passaram a atrair fama em suas aldeias e cidades. Percebendo a oportunidade, as alewives (como eram chamadas as mulheres cervejeiras), passaram a vender as suas cervejas à população.

A partir dessa comercialização, não demorou muito para as casas das alewives se tornarem alehouses – casas cervejeiras. E esses espaços de confraternização com cerveja logo se tornaram casas públicas, ou como mundialmente são chamados – pubs, sinônimo britânico de lugar com boa cerveja.

“A principal característica da cultura cervejeira britânica está ligada ao hábito de beber com os amigos, em rodas de discussão sobre política e futebol. Por isso, mais de 70% do volume de cervejas é vendido em pubs, cafés, restaurantes e clubes, sendo que 60% das vendas  totais  são  de  chope.” (MORADO, 2009, p. 89)

Nos anos em que se deu a transição entre a idade moderna e contemporânea, viu-se o abandono do campo e a ida de muitas famílias para as capitais, o que fez o processo produtivo da cerveja artesanal diminuir. Foi nessa época que as grandes indústrias passaram a tomar o controle da produção no Reino Unido, o que acabou barateando o produto final e alcançando ainda mais consumidores.

Beltramelli (2012), também comenta em seu livro Cervejas, Brejas e Birras, que o estilo de cerveja que marcou a Revolução Industrial no Reino Unido foi a Porter

Com o objetivo de alimentar os fortes carregadores que cruzavam a capital inglesa levando nos ombros os produtos das fábricas para serem vendidos nos mercados da cidade, a cervejaria Harwood’s de Londres criou essa receita calórica. A produção em larga escala e rápido retorno financeiro deu fama ao estilo. 

A Stout, um estilo ainda mais alcoólico, escuro e amargo que a Porter também nasceu nessa mesma época, assim como a Pale Ale e a India Pale Ale.

Porém, com o passar dos anos, mesmo com todo o tradicionalismo das cervejas inglesas, a globalização e o gosto popular pelas lagers também chegou ao Reino Unido, tomando conta dos pubs e dos bares. 

Em contrapartida, um movimento cervejeiro descontente com essa invasão e a produção de cerveja em massa, fundou, em 1971, a associação CAMRA – Campaign for Real Ale, com o objetivo de proteger os tradicionais pubs e, claro, as reais Ales. Desde lá, o grupo que conta hoje com mais de 130 mil membros, vem lutando pelas cervejas artesanais.

2.4 Escola Americana

Diferentemente das outras três escolas cervejeiras, os Estados Unidos ganharam de herança a paixão pela cerveja de seus imigrantes. A bebida chegou no país com os imigrantes ingleses em 1620 e, anos mais tarde, alemães, irlandeses e escoceses também trouxeram sua riqueza cervejeira para o novo mundo.

Apesar de os insumos não serem nativos, as terras americanas aceitaram bem a produção e a bebida tornou-se a queridinha dos americanos. 

O país teve duas grandes fases entre o conservadorismo e o liberalismo: na primeira, em 1918, os Estados Unidos aprovaram a Lei Seca, proibindo o consumo da bebida em seu território. “(…) a Lei Seca forçou um período de abstinência que acabou por empobrecer o perfil sensorial dos consumidores de cervejas em favor do baixo teor alcoólico.” (MORADO, 2009, p. 102).

Esse grande período de escassez deixou o paladar do americano menos exigente e também deixou para trás a bagagem cervejeira de seus imigrantes europeus. Durante esse período, poucas cervejarias conseguiram se manter utilizando os parques fabris para outros negócios, com a produção de outras bebidas não-alcoólicas, por exemplo. 

Com a derrubada da Lei e o início da segunda fase, poucas cervejarias conseguiram se reerguer, já que a falta de insumos era frequente. Quem sobreviveu, lançou mão da utilização de milho e arroz, levando ao consumidor uma cerveja com menor carga sensorial, pálida e leve.

Era o início da era das cervejas American Light Lager, hoje de longe o estilo mais consumido tanto nos Estados Unidos quanto no mundo inteiro, segundo Maurício Beltramelli, em seu livro Cervejas, Brejas e Birras.

Curioso é que, no início da década de 70, apenas 44 cervejarias estavam consolidadas no país. Os analistas de Wall Street previam que muito em breve esse número seria reduzido a apenas cinco. 

Contudo, em 1978 a Escola Cervejeira Americana começou a ganhar força em reflexo a revogação de uma antiga proibição: a produção de cerveja caseira no país. A partir daí os cervejeiros de panela voltaram a fazer suas receitas em casa e, com o tempo, essa revolução estimulou alguns cervejeiros caseiros à profissionalização.

Desde então só houve crescimento do mercado. 

O levantamento feito pela Brewers Association (associação que congrega os cervejeiros artesanais do país) em 2017 estimou haver 6.372 cervejarias no país, aproximadamente 540% a mais que antes da Lei Seca, onde haviam 1.179 cervejarias.

3.0 ESTILOS DE CERVEJA

Segundo Randy Mosher (2015), em Mastering Homebrew, cerveja é um líquido de água e álcool, infundido com dióxido de carbono, aromatizado e saborizado com uma quantidade de proteínas, carboidratos, minerais e diversos componentes aromáticos derivados de malte, lúpulo e fermento, e cada quantidade desses ingredientes traz uma característica única para cada cerveja.

Todas essas características sensoriais provenientes dos ingredientes constroem inúmeras receitas, com sabores e aromas singulares. Para diferenciar e categorizar cervejas, Michael Jackson, em 1977, iniciou as primeiras bases de categorização que serviram de fundamento para os atuais guias de estilos. Hoje, os estilos de cervejas são segmentados por aparência, sabor, ingredientes, métodos de produção, mas também pela sua história e origem.

Mosher (2009), em Tasting Beer, ressalta a importância dos estilos nos dias de hoje, lembrando que a categorização tem o objetivo de ajudar as cervejarias, os consumidores e jurados, mas que esse processo também honra e preserva a história e o jeito de fazer cerveja no mundo todo.

3.1 Guias de Estilos

Rotular uma cerveja ajuda na comunicação, mas também como orientação na construção de um novo produto para o mercado.

 Uma das primeiras classificações de cervejas no mundo foi feita por Michael Jackson, famoso Beer Hunter que em 1977 categorizou os estilos em seu livro The World Guide to Beer

Atualmente, segundo o escritor Ronaldo Morado (2009) em Larousse da Cerveja, existem diversos guias que auxiliam entusiastas, estudiosos, concursos e cervejarias. Os mais utilizados e mundialmente aceitos são os guias da Brewers Association e Beer Judge Certification Program – BJCP.

3.1.1 Brewers Association Guide

Em 1979, a associação de cervejeiros artesanais dos Estados Unidos, a Brewers Association, resolveu criar um guia oficial de estilos a fim de se ter parâmetros para juízes e organizadores de concursos de cerveja, bem como cervejarias e estudiosos do mercado.

As Diretrizes do Guia refletem a significância histórica, a autenticidade ou um perfil importante de um estilo no atual mercado comercial de cerveja. 

A adição de um estilo ou a modificação de um existente é levado a sério: é o resultado de muita pesquisa, análise, consulta e consideração da realidade do mercado verificadas em um determinado – às vezes longo – espaço de tempo.

Segundo o site oficial da Brewers Association, outro fator levado em consideração para incluir um novo estilo no guia, é a inexatidão das características dos exemplos comerciais atuais com o registro histórico e, em razão disso, acabam por representar uma versão moderna do estilo. 

Por isso, a associação revisa e atualiza anualmente o guia,  editando descrições, deletando e/ou adicionando novos estilos.

3.1.2 Beer Judge Certification Program

O Beer Judge Certification Program ou, simplesmente, BJCP também foi criado em terras americanas, pela American Homebrewers Association (AHA – Associação Americana de Cervejeiros Caseiros). A AHA é uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é alfabetizar a apreciação e cultura cervejeira, fomentando as habilidades de degustação e avaliação da bebida.

O guia publica diretrizes de estilo categorizando cerveja, sidra e hidromel em 28 categorias de estilo. Essas diretrizes são usadas tanto por julgadores de cerveja certificados pelo BJCP, como também por organizadores de competições de cerveja.

Apesar de ser mais conservador que o guia BA, as revisões do guia BJCP seguem os mesmos objetivos de melhorar a abordagem dos estilos na forma como encontrados nos mercados, acompanhar as tendências, descrever cervejas históricas para reviver a produção em escala e melhor descrever os novos ingredientes das receitas.

Leia também sobre RAUCHBIER E A TRADIÇÃO CERVEJEIRA ALEMÃ

4.0 CATHARINA SOUR

O estilo que surgiu em terras catarinenses pode ser descrito como uma cerveja de trigo de alta fermentação, leve e refrescante; seu teor alcoólico é médio e seu amargor é imperceptível; possui acidez assertiva e o destaque sensorial vai para as notas da fruta ou especiaria utilizada na receita.

4.1 História da Catharina Sour

Em 2014 algumas cervejarias catarinenses lançaram cervejas baseadas no estilo Berliner Weisse, mas com adição de frutas. O objetivo era incentivar receitas com frutas locais e adaptadas ao clima tropical do país. 

A receita foi ganhando espaço em eventos cervejeiros e cada vez mais adeptos entre os apreciadores de cervejas especiais até que, em 2016, a ACASC (Associação de Micro Cervejarias Artesanais de Santa Catarina), em parceria com algumas cervejarias, começaram a incentivar a produção do estilo no país.

Segundo um dos idealizadores do estilo, Fernando Lapolli (em entrevista), a dificuldade de enquadrar a receita nos estilos existentes nos guias oficiais motivou a ideia de nomear a receita de Catharina Sour, uma cerveja ácida que nasceu em terras catarinenses.

Com diversas cervejarias no país produzindo a “cerveja catarinense”, o estilo foi ganhando popularidade e já na edição de 2018 do Concurso Brasileiro de Cervejas, a maior competição cervejeira do Brasil, a Catharina Sour entrou para lista de estilos oficiais do concurso. Na sequência, outras competições, como a Copa da Cerveja POA, de Porto Alegre, e concursos caseiros no sul do país passaram também a premiar as melhores Catharina Sours.

Na época, ainda com pouca idade e ainda não oficialmente um estilo, a cerveja brasileira conquistou os jurados e a sua popularidade cruzou fronteiras: a cervejaria americana Farnham Ale & Lager, em Vermont, produzia a sua primeira Catharina Sour.

4.2 Ingredientes da Catharina Sour

A receita de uma legítima Catharina Sour contempla os seguintes ingredientes: 

  • Tipicamente, 40% a 60% de malte Pilsen e trigo (maltado ou não maltado). Aveia, cevada, centeio em pequenas proporções são aceitáveis na receita. Maltes munich, vienna, melanoidina, caramelo e torrados não são utilizados; 
  • Lúpulos de alto teor de alfa-ácidos;
  • A levedura da variedade lactobacillus é mais utilizada, preferencialmente neutra a fim de não contrapor aromas e sabores da fruta;
  • Qualquer fruta é aceita, preferencialmente tropicais, que devem ser adicionadas pós-fermentação para trazer as características do ingrediente fresco.

4.3 Produção

A acidez típica do estilo vem da ação de lactobacilos produzindo ácido láctico, que podem ser alcançados por alguns métodos como acidificação mista, acidificação do mosto ou Kettle Sour.

  1. Fluxograma de produção

Figura 01 – Fluxograma de produção

Fonte: Método Kettle Sour, Apresentação ACASC

4.4 Descrição do estilo Catharina Sour

4.4.1 Aparência

Sua coloração varia de acordo com a fruta adicionada, podendo ser turva. Possui boa formação de espuma, de coloração geralmente branca, média persistência e sempre efervescente. 

4.4.2 Sabor

Acidez muito evidente, sendo de média-baixa a alta. Pode apresentar sabor de trigo em níveis baixos e suas caraterísticas de frutas devem ser evidentes e predominantes, mas não aparentar artificial e sim de caráter de frutas frescas. Notas de especiarias podem estar presentes para complementar, mas não sobrepor o sabor da fruta. Não são aceitos sabores de lúpulo, diacetil e notas acéticas. O final é azedo e frutado, deixando o palato limpo.

4.4.3 Sensação de boca

Corpo baixo a médio e carbonatação de médio-alta a alta. A acidez é de média-baixa a alta, sem ser agressiva ou adstringente, passando a sensação de um leve repuxamento na boca. Álcool não deve ser perceptível e os sabores de lúpulo, diacetil e notas acéticas não são aceitáveis.

4.4.4 Aroma

O aroma da fruta utilizada deve ser logo evidente e facilmente reconhecível. A acidez limpa é perceptível no nariz. Malte ausente, podendo aparecer em níveis baixos como apoio. Sem caráter de lúpulo e notas de fermento.

4.4.5 Dados técnicos

Tabela 01 – Dados técnicos da Catharina Sour

OG1039 – 1048
IBU2 – 8
FG1002 – 1008
SRM2+ (podendo variar de acordo com a fruta adicionada)
ABV4.0 – 5.5%
Fonte: Apresentação ACASC e Guia Oficial BJCP

4.5 Mercado

4.5.1 Festival Brasileiro da Cerveja

Das 126 cervejarias participantes, 16 estavam vendendo Catharina Sour no evento de 2018, ou seja, 12% dos produtores expositores. Em pesquisa realizada com algumas das cervejarias participantes durante o evento, foi questionada a porcentagem de venda do estilo  em comparação aos demais. Percebe-se que as empresas que possuem o estilo em sua carta possuem um retorno médio de 20% em comparação aos demais estilos vendidos.

Figura 02 – Percentual de vendas da Catharina Sour

Fonte: Pesquisa realizada com os expositores do evento

4.5.2 Concurso Brasileiro de Cervejas e Festival Brasileiro de Cervejas

Em 2018, o estilo ganhou ainda mais força quando o Concurso Brasileiro de Cervejas de Blumenau, o maior do Brasil, incluiu a categoria do estilo. Já em sua primeira aparição, o estilo teve recorde em inscrições, com 57 amostras inscritas de um total de 148, ficando como o oitavo estilo com mais inscrições, estando a frente de outros mais tradicionais.

Apesar de o nome ser uma homenagem ao estado de Santa Catarina, o precursor do estilo, observa-se na origem das cervejarias inscritas que o movimento vem alcançando outros estados brasileiros também.

Tabela 02 – Origem das cervejarias produtoras da Catharina Sour

Estado das cervejariasNúmero de rótulos inscritos
Goiás1
Minas Gerais3
Paraná4
Rio de Janeiro4
Rio Grande do Norte1
Rio Grande do Sul7
Santa Catarina32
São Paulo5
Fonte: Dados Concurso Brasileiro de Cervejas 2018

Muitos especialistas questionam a Catharina Sour pela similaridade com o estilo Berliner Weiss. Para entender essa proximidade, alguns jurados (32) do Concurso Brasileiro de Cervejas, profissionais renomados nacionalmente e internacionalmente, foram questionados se concordavam com a comparação da Catharina com a Berliner Weiss. Eis o resultado da pesquisa:

Figura 03 – Pesquisa com jurados do Concurso Brasileiro de Cervejas

Fonte: o autor

Apesar da similaridade com o estilo germânico, a adição de frutas faz toda a diferença na Catharina Sour. Dos entrevistados, 75% acreditam que o estilo deveria conter apenas adição de frutas nacionais, para manter coerência com o título de primeiro estilo brasileiro de cerveja.

Figura 04 – Pesquisa com jurados do Concurso Brasileiro de Cervejas

Fonte: Autor

Por fim, foi questionado aos especialistas se eles acreditavam que a Catharina Sour poderia ser o primeiro estilo brasileiro com base em seus conhecimentos em estilos. Mais de 84% acreditam na inserção da cerveja catarinense nos guias oficiais para que assim ela possa ser reconhecida como um estilo mundial.

Figura 05 – Pesquisa com jurados do Concurso Brasileiro de Cervejas

Fonte: o autor

5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Historicamente, a cerveja nasceu em locais onde as condições geográficas favoreciam o desenvolvimento dos grãos. Com o passar do tempo, política, leis, ingredientes e costumes influenciaram a história dessa bebida fermentada, formando as quatro Escolas Cervejeiras atuais, responsáveis por disseminar as diretrizes de seu processo de produção e de qualidade para todo o mercado mundial.

O Brasil, colonizado por europeus, herdou tanto o gosto pela cerveja quanto pela produção da bebida, mas o setor só ganhou fôlego quando superou a questão do difícil acesso aos grãos de qualidade, através da abertura do país aos processos de importação e da aproximação com a tecnologia.

De fato, apenas há poucos anos, mais precisamente desde que o movimento artesanal começou a se expandir no país, que o Brasil vem encontrando a sua verdadeira identidade cervejeira, com receitas que levam frutas tropicais, especiarias e outros ingredientes tipicamente nacionais. 

A Catharina Sour é reflexo desse movimento e a adição de frutas frescas e especiarias em um estilo base europeu trouxe características que não se encaixaram em estilo algum catalogado anteriormente.

Todos os atributos sensoriais, como também a aceitação do consumidor brasileiro, tornou a Catharina Sour o primeiro estilo brasileiro catalogado em um guia oficial. 

No dia 4 de julho de 2018, o site do Beer Judge Certification Program – BJCP confirmou a inserção na revisão seguinte do material.

A Escola Cervejeira Brasileira ainda não está formada e, talvez, a Catharina Sour seja o protótipo do jeito brasileiro de fazer cerveja. A flora nacional é rica e carrega características sensoriais únicas, representando o país em diversas áreas. A pergunta que fica é: essa riqueza natural, essa identidade brasileira, consegue transparecer nos aromas e sabores da bebida? É para responder a essa pergunta que os estudiosos cervejeiros continuam em busca de aperfeiçoamento da cerveja nacional.

REFERÊNCIAS

BELTRAMELLI, M. Cervejas, Brejas e Birras. São Paulo. 2012.

BONACCORSI, M. M., Guia de Estilos BJCP 2015. Disponível em <http:// www.brauakademie.com.br/assets/bjcp-2015-beer-pt-br.pdf>. Acesso em 11/07/2018.

BREWERS ASSOCIATION.  Beer  Style  Guidelines  2018  Edition.  Disponível em <https://www.brewersassociation.org/resources/brewers-association-beer-style- guidelines/>. Acesso em 11/07/2018.

JUDGE BEER. X4. Catharina Sour. Disponível em <http://dev.bjcp.org/beer-styles/ x4-catharina-sour/>. Acesso em 11/07/2018.

JUDGE BEER. BJCP Announces Provisional Styles. Disponível em <http:// dev.bjcp.org/news/bjcp-announces-provisional-styles/>. Acesso em 11/07/2018.

MORADO, R. Larousse da Cerveja. São Paulo. 2009.

MOSHER, R. Mastering Homebrew: The Complete Guide to Brewing Delicious Beer. Chicago. 2015.

MOSHER, R. Tasting Beer. Boston. 2009.

OLIVER, G. The Brewmaster’s Table. New York. 2005.

* As opiniões expressas pelos alunos e ex-alunos da Escola Superior de Cerveja e Malte em artigos e entrevistas publicados nesse blog, representam exclusivamente as opiniões dos seus autores e não, necessariamente, a posição institucional da ESCM.

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